A exuberância da Big Sax Section, solada por Yusef Lateef (primeiro na flauta, depois o tenor), Nat na corneta, e as teclas de Winton Kelly; segue-se diálogo a três, terminando com o quente dos metais.
Em baixo, Sara Mitra ao vivo. A música é de Nat Adderley, a letra é de Nancy Wilson.
A tragédia do colonialismo, segundo José Afonso. Tragédia em ritmo de trópico, como o sublinha o exuberante piano de João Lucas e as vocalizações de Afonso sobrinho.
Em baixo, o original afonsino de O Coro dos Tribunais (1975).
O riff solitário, reconhecível à distância, à medida que entram baixo e segunda guitarra, postos em suspenso pela bateria. Abre-se um diálogo entre as guitarras dos irmãos Young, e surge Scott, avinhado e obsceno, a cantar como nunca mais. Pouco antes do fim, um solo memorável de Young, terminando tudo em Bon.
Em baixo, um descarado playback, que só aqui fica porque sim.
Um belíssimo poema de José Afonso, também autor da música (em Traz Outro Amigo Também, 1970), magnificados por João Afonso e João Lucas. A voz do sobrinho é mais grave que a do tio; o piano aquece-nos e afoga-nos. É sublime.
A entrada inspiradíssima do piano de Hank Jones, trompete e sax alto a par até ao arranque a plenos pulmões de Julian Adderley; depois, Miles Davis, cheio de coolness; o balanço contínuo da secção rítmica. Terceiro solo, o piano a desenvolver o fraseado inicial. Imparáveis, novos solos de Julian, Miles e Hank, para terminar com os riffs com que os sopros abriram, Miles perguntando a Alfred Lion, o produtor: "Era isto que querias, Alfred?..." O tema é de Nat Adderley.
A Tori Amos canta(-se) muito bem. A produção, sua e de Eric Rosse é excelente: os samples de cordas (o final podia ser dum quarteto de Dvořák...), o tratamento das vozes...
A interpretação de João Afonso, altíssima, ao nível da lírica de José Afonso, seu tio, uma angústia de inevitabilidade e solidão. João Lucas, a quem pertence o arranjo, exímio (o solo é maravilhoso), dá ossatura a este tema superlativo.
Em baixo, o original, de Cantos Velhos, Rumo Novo (1969).
Catalão e profundamente espanhol Albéniz apaixonou-se pelo Sul, pela Andaluzia, mas, em vida, foi mais apreciado em França do que no país natal. Gabriel Fauré disse dele: «Não há nada mais que um Isaac Albéniz sobre a terra digno de ser Isaac Albéniz.»
Esta interpretação de Sánchez é notabilíssima. Em baixo, um filme com Boris Berezovsky.
De Little Earthquakes (1992). Bem construída e produzida, surpreendente em primeira audição, mantendo interesse nas posteriores, tem a intensidade e o estranhamento a que a letra obriga, sem forçar demasiado a nota, como por vezes lhe sucede. Em baixo, boa performance ao vivo, em 2002.
Tema inicial do álbum homónimo, de Young, Young & Scott. Simples, duro, directo e bom, dos riffs e do solo de Angus Young à voz de bagaço do bon do Scott, no seu último disco. Em baixo, em Paris, Dezembro de 1979.
O tema é de Miles, que sola primeiro; segue-se Julian Cannonball, depois em diálogo, sempre sustentados impecavelmente pela secção rítmica, Jones, Jones & Blakey. O solo de Hank é exquisite; e é dos diabos o speed de Art Blakey nos pratos, pelo minuto 3'58"...
Parece-me claro ser a 7.ª, e não a 8.ª, que prefigura a 9.ª
Zubin Metha e a Orquestra Filarmónica de Israel.
(em tempo, 24/II: e continua a ouvir-se, directamente, a 6.ª na 7.ª, para além de tudo o resto, o antes e o depois, como é óbvio)
Tema directo e inspirado a abrir um dos mais fantásticos discos dos Beatles, o so called duplo White Album, que tem tudo: do rock'n'roll ao experimentalismo. O grande McCartney, que compôs, canta, toca guitarra, o piano e uma parte da bateria... brinca na Guerra Fria (estamos em 1968) e pisca os olhos à música americana (Chuck Berry, The Beach Boys, Hoagy Carmichael, está tudo aqui), enquanto clama pelas miúdas russas e ucranianas (outros tempos...).
Em baixo, Macca em Moscovo, já neste século, Putin a assistir.
Álbum gravado ao vivo no "Trova", de Buenos Aires. Tonga da mironga do kabuletê, parece que não quer dizer nada, são vocábulos de origem africana que sugestionaram Vinicius pela sua musicalidade, sendo, também uma forma divertida de mandar os militares, que então governavam o Brasil, para as mães deles. O diálogo em baixo com Toquinho, num registo também efectuado na Argentina, indicia-o. É uma alegria de música, e a bateria de Enrique Rosner tem um beat que não nos dá sossego.
James Bond, os filmes, as músicas, trazem-me inúmeras recordações. Sou capaz de lembrar-me em que circunstâncias vi determinado filme, em que cinema e com quem. As músicas são esplêndidas ,na sua maioria, e têm o dedo de John Barry, na autoria ou na orquestração, como sucede com este tema de Monty Norman, do inicial «Dr. No», incrível de força e, ao mesmo tempo, subtileza. O vibrafone e os trombones em crescendo com a perturbante guitarra, até à explosão estrepitosa dos sopros com a bateria, para retomar o tema inicial e finalizar à Bond, James Bond...
Em baixo, a Orquestra da BBC, dirigida por Keith Lokhart, em 2011
De Meus Caros Amigos (1976). Composto para o filme de Bruno Barreto, Dona Flor e Seus Dois Maridos. A película, nunca a vi; mas li o livro de Jorge Amado, de 1966, história pícara e fantástica que decorre na Bahia da década de 1940. Dona Flor é uma deliciosa e seriíssima mulher e esposa respeitada e respeitadora, com mão de musa para a culinária. Viúva do primeiro marido, Vadinho, um vadio safado, jogador e grande amante, que se finou num cortejo carnavalesco, consorcia-se em segundas núpcias com o Dr. Teodoro, farmacêutico austero, distinto e honrado, amador de música, executante compenetrado de fagote e incapaz de faltar ao respeito à sua Flor. Tudo se complica quando o fantasma de Vadinho começa a visitar Flor, que, muito mal tratadinha no leito do himeneu, no meio de grande luta consigo própria, vai cedendo às investidas do lúbrico espectro, e também vai gostando.
A letra de Chico Buarque é espantosa, traduzindo simultaneamente a saborosa malícia amadiana e a cor das vielas e dos botecos desse enorme painel que o escritor recriou. O dueto com Milton Nascimento é perfeito (ou não fossem, um e outro, autores do mais alto coturno.
Não tenho grandes dúvidas de que Out Of Africa tem assegurado um destino equivalente ao de Casablanca. E se Bogart e Bergman contribuíram para isso decisivamente, o momento angular do filme é "As Time Goes By", entoada por um constrangido Dooley Wilson. O filme de Pollack tem outra parelha histórica (Streep e Redford) e também um conflito triangular. Mas a banda sonora de Barry -- um nome imprescindível da música incidental -- é poderosíssima e alimenta-lhe a mística pelos tempos afora (inesquecível a cena do voo, o enleamento de ambos, os planos de Pollack e os sons de "Flying Over Africa"...) Aqui é o tema de abertura, dirigindo o próprio compositor sobre uma orquestra não mencionada (!); em baixo a Orquestra Sinfónica do Teatro Castelar de Elda (Alicante), conduzida por Octavio J. Peidró.
Do álbum homónimo (1964, o meu ano). Sempre a abrir, dos acordes iniciais às teclas de George Martin. Ouçam Ringo, a quem se deve a originalidade do título (jornada de trabalho nocturna cansa...) -- ouçam a destreza daquele pulsar das baquetas... O tema é de Lennon, voz principal.
O Concerto para Orquestra (1943) é uma das minhas peças preferidas, de todos os tempos e em todos os géneros. Para além da intensa melancolia e da grande tensão que conjuga, como um estado de prostração com súbitos espasmos nervosos, nunca posso esquecer que Béla Bartók estava no seu exílio norte-americano, com a saúde em baixo (morreria não muito depois) e a Europa em guerra. Este primeiro andamento resume tudo isso
de Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades(1971).Valsinha triste com os sons da estação de comboios de Austerlitz, em Paris, cidade de emigrantes portugueses fugidos à pobreza do país, dos desertores da Guerra Colonial, dos exilados políticos perseguidos pelo Estado Novo. Também desertor e exilado político (fora preso pela PIDE em 1962, e preparavam-se para lhe dar o castigo de combater no conflito criminoso de Portugal em África, em entrevista a Adelino Gomes, nesse ano de 1971, dizia José Mário Branco: "Eu, como os 700 mil portugueses que estão aqui em França, nunca abandono a ideia de que Austerlitz se transforme um dia numa estação de regresso ao meu país" (livreto do CD, 1995)
Abre Fura Fura (1979), um dos meus discos preferidos. Todo o lado A é preenchido com a música que José Afonso compôs para a peça «Zé do Telhado», levada à cena pelo grupo A Barraca. A voz de Zeca é particularmente calorosa (a letra é do nosso cancioneiro popular), dando o coro, a cargo dos Trovante, o contraponto vigoroso que o solista não se permite.
Em baixo, versão dos Canto D'Aqui, na Festa do Avante! 2012.
«Wasted Words», de Gregg Allman, aqui já o único brother sobrevivente, a dar a voz. Um prodígio de fusão country, blues e soul, e em que o todo instrumental é relevante (estou a pensar na secção rítmica), pese o destaque das guitarras. O diálogo entre a guitarra e o piano, com intromissão da bateria em fade out, consegue ser esfuziante.De Brothers And Sisters (1973). Em baixo, Gregg Allman em Los Angeles, 40 anos depois
Armstrong de novo fora (?) do jazz, nesta gravação de 1964 (o meu ano), música que fez sua, não o sendo: ...This is Lewissss, Dolly! O não ser jazz era algo para que ele se estava nas tintas, como o estavam o Duke, o Ray e o King, que, abaixo, o acompanham, num concerto lendário no Madison Square Garden.
Standard de 1937, gravado vinte anos depois, no encontro de Louie com Oscar Peterson. Satchmo só canta só como ele sabe, e não recorre à trompete; Oscar, nada torrencial, acompanha com subtileza, até dar o sinal de término, scat de Pops, dedilhar da guitarra de Herb Ellis -- e acabou.
Em baixo, Anita O'Day, também enorme, talvez a maior cantora branca de jazz.
Um tom de litania, palavras do baiano Ildásio Tavares, música de Gerônimo, a abrir o esplêndido álbum Brasileirinho (2004), um disco que nos transporta para o mais profundo ethos brasileiro, português, índio e africano. Bethânia acompanhada pelos mineiros do Grupo Uakti; pelo meio o maranhense Ferreira Gullar (Prémio Camões) diz -- e que bem! -- um excerto dum poema do paulista Mário de Andrade, o livreto, atravessado por frases de João Guimarães Rosa. Ouvir, reouvir, muitas vezes, como uma prece.
Uma das primeiras gravações de Louis Armstrong (Abril de 1923), acabado de chegar de Nova Orleães, chamado por Oliver, em Chicago desde 1918. Ralph J. Gleason transcreve no livreto a evocação de Satchmo: "He sent for me to play second cornet [...] Couldn't nobody get me out of New Orleans but him! I wouldn't take that chance. / I hadn't heard his band till I got back to Chicago. When I heard it at the door I said 'I ain't good enough for this band, I think I'll go back...'"
Da autoria de Oliver e Bill Johnson, é desopilante e (minutos 1'-1'40") irresistível.
King Oliver (corneta, líder), Louis Armstrong (corneta), Honore Dutrey (trombone), Johnny Dodds (clarinete), Lil Hardin-Armstrong (piano), Bill Johnson (banjo) e Baby Dodds (percussão).
...da Sonata #9 (a Kreutzer), de Beethoven.
Se eu tivesse de escolher um único compositor para a ilha deserta, seria este -- o que mais me comove, o que mais admiro, tão tenso (veja-se como Peter Kuhar aborda o violino), tão patética, sublime e terrivelmente humano.
O 1.º andamento é uma das muitas obras-primas que este milagre de humanidade nos legou.
Peter Kuhar (violino) e Ivan Fercic (piano).
De novo de Cantigas do Maio (1971), de novo o génio do grande músico de Aveiro e o talento de José Mário Branco. Esplêndido também o acompanhamento da guitarra de Carlos Correia (Bóris).Em baixo, Júlio Pereira com Sofia Vitória, em 2008, no Porto (Casa da Música).
De Venham Mais Cinco (1973). Ao génio de José Afonso junta-se o extremo savoir-faire e a ironia de José Mário Branco, na direcção musical deste disco gravado em Paris, confirmada logo nesta faixa inicial, uma espécie de «Grândola Vila Morena» ao contrário. E uma referência devida a Yório Gonçalves, na guitarra.
De Steven Tyler e Joe Perry. Quando os Aerosmith eram interessantes. Abertura de Night In The Ruts (1979), balanço stoniano com reforço hard rock. A voz de Tyler não perdeu ainda o timbre dos primeiros discos, e a articulação é excelente ; as duas guitarras, Perry e Brad Whitford, muito bem entrosadas; briosa a secção rítmica (Tom Hamilton e Joey Kramer). O disco é, aliás, todo bom, e um dos meus preferidos da banda.
Gravado no Spotlight Club, em Washington D.C., a 6 de Setembro de 1958. As palmas e o barulho de copos e pires entrechocando-se, não nos prepara para o que vem aí: primeiros acordes de contrabaixo (Israel Crosby), piano (Ahmad Jamal) e as vassouras de Vernel Fournier; passam 25 segundos e a mão direita de Jamal ganha vida própria. Um dedilhar concentrado até ao balanço cúmplice dos três instrumentos, que se acompanham, soltando-se Crosby, Fournier e Jamal dialogando de vez em quando com maior assertividade. O solo de Jamal, entre 1'28'' e 1'46'' estonteia e termina como um espasmo. Ouvimos a voz de Ahmad, quando em seguida fustiga as teclas, yes!, recolhendo logo o ímpeto, para a conversa continuar, um pouco mais agitada. O público já aqueceu, vamos ao resto...
Um lençol sonoro de 6 sopros 6: Miles Davis, trompete; Kai Winding, trombone; Junior Collins, trompa; John Barber, tuba; Lee Konitz, sax alto; e Gerry Mulligan, sax barítono. O noneto é completado com a secção rítmica: Al Haig, piano; Joe Shulman, contrabaixo; Max Roach, bateria. Acolhedores, os graves da tuba e do barítono, mas um break da bateria lembra-nos que a pacificação é ilusória. Solam Miles e Konitz (uma alegria, o seu fraseado), e depois todos os metais, com Max Roach a pôr pontos nos is.
Move foi composto pelo baterista Denzil [DaCosta] Best, e abre Birth Of The Cool (1957) (o alinhamento do cd difere do do lp...)
Louis Armstrong & His All Stars (& Velma Middleton).
Standard absoluto de W. C. Handy, reconhece-se à partida o inconfundível pulmão de Satchmo.
O acompanhamento inicial, clarinete, trombone, piano, suave, a realçar ainda mais a trompete, que entra, aos 1'21'' numa cadência caribenha (matéria para quem saiba de música e etnomusicologia...)
Segue-se o embalo para preparar a voz quentíssima de Velma Middleton. O diálogo entre Velma e Louie, primeiro voz e trompete, depois voz e voz, é extraordinário. O solo de Bigard, por volta dos cinco minutos, acompanha o início da disputa entre o casal, quando a conversa degenera, entra veemente, aos 7 minutos, o trombone de Trummy Young. No final, parte-se a loiça toda, trompete e trombone polemizam, o piano de Billy Kyle parece entornar as teclas, como se num desenho animado americano da época de ouro. Um break de Barrett Deems parece acabar com a conversa.
Faixa #1 de Louis Armstrong Plays W. C. Handy (1954). L. A., trompete e voz; Trummy Young, trombone; Barney Bigard, clarinete; Arvell Shaw, contrabaixo; Barrett deems, bateria; Velma middleton, voz. LP CBS.
[actualizo (ando um bocado à nora com este blogue...) para postar uma actuação em Itália, 1959]
Uma boa entrada, entrada grandiosa (suponho que a isto se chame "rock sinfónico", enfim...), baixo de Holroyd bem sincopado, bateria de Pritchard, a seguir. O Holroyd é um insuportável pomadoso, mas, mesmo assim, a letra safa-se, tal como a guitarra de Lees, este também em apoio vocal ao primeiro.
Apesar de tudo, gosto -- gosto a que não será alheio o impacto que teve, nos meus 15 anos, esta entrada triunfal no velho pavilhão do Dramático de Cascais, na digressão que promovia o disco.
Em baixo, uma competente prestação ao vivo, suponho que na kitsch Alemanha, onde os BJH foram sempre mais populares do que em casa. Mesmo assim, não tão boa como a que assisti em Cascais.
Faixa 1 de Eyes Of The Universe (1979). Tema de Les Holroyd. John Lees, voz, guitarra e teclas; Les Holroyd, voz, baixo e teclas; Mel Pritchard, bateria (e teclas?).
Quando, na minha infância inocente, ouvia este brado lancinante do John Lennon, devia ter a vaga ideia de que se tratava de algo sério, mas logo o incrível arranjo vocal do George Martin, e o beat !, me transportavam para outras galáxias, que eu nem sequer supunha existirem. Do álbum homónimo (1965), faixa 1.
Em baixo, ao vivo (BBC?...) e mais abaixo, cover dos Deep Purple...
Heathen (2002), o negrume do aftermath do 11 de Setembro, de que «Sunday», litania de abertura, é o rescaldo, o day after (o ataque foi perpetrado num sábado), uma prece que suplica por protecção e amparo. Um óptimo disco, com produção excelsa do próprio D.B., com o experimentado Tony Visconti.
O olhar atento de Chico Buarque, sempre para além da superfície e à margem do bonitinho; «choro-canção» com uma lírica fantástica que faz jus a quem sempre cultivou com mestria -- essa língua «que abusa / De ser tão maravilhosa». Faixa inicial de Carioca (2006). L. C. Ramos, violão; Jorge Helder, baixo acústico; Celso Silva, pandeiro; Cristóvão Bastos, piano acústico; Paulo Sérgio Santos, clarinete; Marcelo Bernardes, flauta; Hugo Pilger, violoncelo. Em baixo: gravações do CD e do DVD.